Alex Karp e a guerra pela soberania em IA nas empresas
Alex Karp não é exatamente um nome popular fora do circuito de tecnologia e defesa. Mas o CEO da Palantir vem se tornando a voz mais incômoda do Vale do Silício ao atacar frontalmente o modelo de negócios das duas maiores empresas de inteligência artificial generativa do mundo.
Em entrevista à CNBC após a divulgação dos resultados trimestrais da Palantir, Karp acusou OpenAI e Anthropic de estarem "tentando nos viciar em um futuro que elas acreditam controlar". Não é a primeira vez que ele faz esse tipo de crítica, mas o contexto agora é diferente: os números da Palantir lhe dão autoridade para falar.
A companhia reportou US$ 1,9 bilhão em receita no trimestre, alta de 93% na comparação anual. O lucro atingiu US$ 1,1 bilhão, valor superior ao faturamento total do mesmo período do ano anterior. A ação disparou 29% em um único pregão na Nasdaq. A empresa agora vale US$ 390 bilhões.
A tese de Karp é relativamente simples, mas suas implicações são profundas. Segundo ele, empresas que contratam os modelos de linguagem (LLMs) da OpenAI ou da Anthropic estão, na prática, transferindo o valor intrínseco de seus negócios para essas plataformas.
O argumento central: ao alimentar os LLMs com dados proprietários, as empresas clientes perdem o controle sobre sua propriedade intelectual. Os modelos "ficam com os dados" e "levam o alfa", nas palavras de Karp. O que sobra para o cliente é, segundo ele, "uma parcela residual" do valor gerado.
Referindo-se diretamente a Dario Amodei, CEO da Anthropic, Karp disse que a filosofia da empresa pode ser resumida assim: "Eu sou o dono do futuro. Portanto, você deve transferir o valor do seu negócio para mim e ficar satisfeito." Para Karp, a única forma de Amodei justificar isso é acreditar genuinamente que está construindo "um futuro melhor", ainda que esse futuro, segundo o CEO da Palantir, só seja melhor para a própria Anthropic.
Tanto a OpenAI quanto a Anthropic afirmam que os dados dos clientes não são usados para treinar seus modelos. Mas a desconfiança no mercado corporativo existe e vem crescendo, como temos abordado na cobertura de tecnologia do portal.
A Palantir não desenvolve LLMs próprios. Em vez disso, integra modelos de diferentes fornecedores com os dados e sistemas legados dos clientes, usando uma camada de aplicação chamada Ontology. Essa arquitetura semântica e operacional funciona como uma barreira: os dados permanecem sob controle do cliente, e o valor gerado pela IA fica internamente na organização.
É uma abordagem radicalmente diferente do modelo "tokenizado" da OpenAI e Anthropic, em que o cliente paga por uso de tokens e, na prática, depende da infraestrutura e dos termos do fornecedor. Karp resume a pergunta que ouve de grandes clientes corporativos e governamentais: "Por que gastaríamos dinheiro com algo que não é útil para depois não controlar os meios que nos permitem expandir nossos negócios?"
Na carta aos acionistas, Karp foi ainda mais enfático. Usou uma analogia marxista para descrever a dinâmica de poder: "Muitos daqueles que desenvolvem LLMs pretendem, consciente ou inconscientemente, apropriar-se dos meios de produção de seus supostos parceiros." É uma ironia deliberada. Um CEO de uma empresa que vale quase US$ 400 bilhões usando Marx para criticar o complexo industrial de IA.
Essa discussão sobre como a IA está transformando setores inteiros não é nova, mas ganhou uma camada de urgência com os resultados da Palantir mostrando que existe um modelo alternativo viável.
Para Karp, o debate relevante não é entre IA de código fechado (como OpenAI e Anthropic) e IA de código aberto (como os modelos da Meta e empresas chinesas). A questão central é soberania. Quem controla os dados, os modelos e o valor gerado?
Ele minimizou inclusive o problema da destilação de modelos pela China, prática em que empresas chinesas copiam modelos americanos. "Como você acha que esses modelos adquiriram seu valor? Eles destilaram todo o valor da propriedade intelectual de toda parte, inclusive do setor corporativo", disse. Na visão de Karp, os próprios modelos de fronteira americanos fizeram algo semelhante ao treinar com dados da internet aberta e de parceiros comerciais.
"Todas as organizações do mundo estão despertando para os riscos de entregar as chaves de suas instituições aos criadores dos LLMs", escreveu Karp na carta. A frase pode soar alarmista, mas os números contam uma história consistente. O faturamento da Palantir nos Estados Unidos cresceu 115% no trimestre, sinalizando que grandes organizações americanas, incluindo o governo, estão comprando a tese da soberania em IA.
No acumulado do ano, a ação da Palantir ainda registra queda de 9%, reflexo de uma correção de múltiplos que atingiu boa parte do setor de tecnologia. Mas o salto de 29% em um único dia mostra que o mercado reconheceu a entrega. A questão agora é se o modelo da Palantir escala globalmente da mesma forma como vem crescendo nos EUA, tema que se conecta com as dinâmicas de mercado que acompanhamos em finanças.
A crítica de Karp não é uma excentricidade filosófica. Ela aponta para uma tensão estrutural no mercado de IA que vai definir vencedores e perdedores na próxima década. Se o modelo de "IA como serviço" concentra valor nas mãos de poucas plataformas, o resultado é uma dependência perigosa para empresas e governos.
A Palantir está apostando que grandes organizações vão preferir pagar mais por soberania do que economizar com conveniência. Os resultados trimestrais sugerem que essa aposta está funcionando. Com US$ 1,1 bilhão de lucro em um único trimestre e crescimento de receita acima de 90%, a companhia tem números para sustentar o discurso.
A pergunta que fica é se OpenAI e Anthropic vão precisar adaptar seus modelos de negócio para atender a essa demanda por controle, ou se a conveniência e a superioridade técnica de seus LLMs continuarão sendo argumento suficiente. Em qualquer cenário, Karp colocou o debate no centro da conversa. E os resultados da Palantir garantem que ele não será ignorado.
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